#02 | O Arquivo

Nesta rubrica, guardo textos de outros autores que encontrei pelo caminho e que, de alguma forma, decidiram ficar comigo.
Os nossos tristes assuntos
Tal como pedes eu trato dos nossos tristes assuntos já rasguei o teu retrato e outro em que estávamos juntos. e o anel que tu me deste fui deitá-lo fora ao mar, o vento soprava agreste e não havia luar. há-de ficar-te a lembrança da nossa vida passada, eu, perdida a esperança, fico sem nada, sem nada. fica tu com as mentiras que te dizem estou bem e outras mais que tu prefiras, que as não digo a mais ninguém. fico eu com as verdades tão duras, sem exagero, e angústias e ansiedades e agonia e desespero, (...) não me conheço ao espelho: serei eu? não serei eu? já deixou de ser vermelho um coração que bateu. (...) — Vasco Graça Moura, In Poesia 2001-2005, Lisboa: Quetzal Ed., 2006

Notas de Rodapé
Há textos que lemos e ficam connosco.
Volto muitas vezes a este poema de Vasco Graça Moura pela forma como fala daquilo que fica depois de uma despedida: as memórias, as mentiras que contamos aos outros e, sobretudo, as verdades que guardamos para nós.
Há qualquer coisa de muito doloroso nesta ideia de ficar “sem nada, sem nada”, quando, na verdade, ficamos com tudo aquilo que não conseguimos deitar fora: as lembranças, as angústias e as perguntas.
E tu, há algum poema que continues a guardar depois de o leres?
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À Cabeceira, para descobrir as leituras que me acompanham.
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